Revista Theodora – Theodora Magazine

A poeta, tradutora e editora Virna Teixeira lançou recentemente seu novo empreendimento literário: trata-se da revista literária e de artes visuais bilíngue Theodora, com foco em identidades, sexualidades, diversidades.

O projeto editorial está lindo e as colaborações são de altíssimo nível. Há poemas de Horácio Costa, Patti Smith e Najwan Darwish – este último, em tradução minha.

O endereço da revista é https://www.theodorazine.com/

 

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Arte de capa – Ramon Peralta

 

 

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Resenha de Dobres sobre a luz, por Thiago Scarlata

O Thiago Scarlata, do Croqui Blog Literário, escreveu uma resenha generosa sobre o Dobres sobre a luz (2016). Além do texto crítico, o Thiago fez comigo uma espécie de mini-entrevista, buscando apreender o meu olhar sobre esse trabalho. Exercício interessante, análogo a um debruçar-se sobre si. Está lá, na sequência.

Agradeço a acolhida aos poemas e o tempo dedicado à escrita. E deixo um pedacinho do texto, convidando para que acessem o material completo no link:

“Em sete seções, o poeta maneja do clássico ao experimental. Como sugere o título, é como se Ponce de Moraes tivesse feito ‘dobres sobre a luz’ e visto bem além, convidando-nos a um salto corajoso para fora dos domínios conhecidos da expressividade.”

Link para a resenha: http://croquitts.blogspot.com.br/2018/04/dobres-sobre-luz-apogeu-e-queda-da.html

 

Inelutável modalidade do visível

Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensado através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se se pode por os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.

Ineluctable modality of the visible: at least that if no more, thought through my eyes. Signatures of all things I am here to read, seaspawn and seawrack, the nearing tide, that rusty boot. Snotgreen, bluesilver, rust: coloured signs. Limits of the diaphane. But he adds: in bodies. Then he was aware of them bodies before of them coloured. How? By knocking his sconce against them, sure. Go easy. Bald he was and a millionaire, maestro di color che sanno. Limit of the diaphane in. Why in? Diaphane, adiaphane. If you can put your five fingers through it, it is a gate, if not a door. Shut your eyes and see.

 

[trecho de «Ulysses» de Joyce em tradução de Antônio Houaiss]

 

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Parece que há tempo para poesia ainda

Como é de costume, meus trabalhos em poesia começam a sair sempre na sequência do meu aniversário (meados de novembro). Isso deve ter alguma coisa a ver com meu mapa, com alguma conjunção astral ou vibracional – deve ter alguma coisa a ver com nascer e estar no mundo.

Meu primeiro livro, «Imp.», foi lançado em dezembro de 2006; «De gestos lassos ou nenhuns», em dezembro de 2010; «Dobre sobre a luz», final de novembro do ano passado.

Esse ano de 2017 foi um ano ótimo para a escrita; particularmente, avancei em vários projetos diferentes – alguns poemas novos estão na plaquete que a Editora Quelônio lançou (quando: em dezembro/2017, claro!); uma outra sequência, «espacelamentos», em diálogo com Francesca Woodman, fica para o próximo ano; e, sim, last but not least, esse longo poema a que chamei «uma fotografia» – talvez pelo que de suspenso haja nele, talvez pelo que de atravessar o tempo, talvez pelo que de lançar a isca da lembrança, talvez pelo que porta de precário, talvez pela linguagem em que se escreve etc. etc. -, que acaba de sair pela Leonella ateliê, em parceria com a Adriana Zapparoli(editora-poeta) e o Felipe Stefani (desenhista-poeta).

São poucos exemplares, tiragem bem pequena, mas muito caprichada em papel couchê no miolo.

Agradeço a todos que, de alguma forma, estiveram próximos esse ano. É uma grande alegria compartilhar esses tempos nem sempre alegres na presença de vocês. Parece que há tempo para poesia ainda em 2017. Viva!

 

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Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

 

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Vozes, Versos + Poesia com Pecado

Na próxima semana, nos dias 12 e 13 de dezembro, estarei em São Paulo para participar de dois eventos de poesia muito interessantes e que têm movimentado as discussões em torno do gênero ao longo do ano.

Dia 12/12Vozes, Versos – com curadoria de Heitor Ferraz Mello e Tarso de Melo

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Plaquete da Editora Quelônio (com poemas de Micheliny Verunschk, Marcos Siscar e Thiago Ponce de Moraes)

Vozes Versos

 

 

Dia 13/12 – Poesia com Pecado – com curadoria de Francesca Cricelli e Vitor Miranda

Poesia com Pecado

 

 

 

Defesa de doutorado

Em novembro do ano passado, após longos anos de estudo e escrita, defendi minha tese sobre a obra em prosa e a obra poética de Paul Celan, na UFF.

O nome do trabalho é Nó de ar: Paul Celan – leituras, destinos.

A banca foi formada pelos seguintes professores: a minha orientadora, Paula Glenadel; Olga Kempinska e Franklin Dassie, pela UFF; Carlinda Fragale Pate Nuñez e Marcus Alexandre Motta, pela UERJ.

Recentemente, descobri que a tese já está disponível no Repositório da UFF e pode ser acessada/baixada AQUI. Creio que possa interessar a quem aprecie a obra do poeta romeno, bem como àqueles que pensem as relações entre escrita e leitura.

 

Papel de Rascunho

A poeta Virna Teixeira, em 2006, nos primórdios das redes de poesia na internet (naquela época, todos os poetas tinham blogs e assim nos conhecíamos uns aos outros), selecionou algumas vozes que vinham surgindo nos anos anteriores e publicou uma antologia chamada «6 poetas jovens (no papel rascunho)».

Hoje, tendo retomado seu blog há alguns dias, Virna colocou online essa plaquete para download, coisa que me deixou bastante nostálgico por aqui. Foi minha primeira publicação impressa – e também o início de longos diálogos com muitos amigos da poesia; diálogos que perduram até hoje (ano passado, por exemplo, pela Carnaval Press, saiu minha plaquete bilíngue com tradução do Rob Packer; com outros poetas, nos idos desse mesmo 2006, criamos o site de poesia Algaravária, em que publicávamos nossos trabalhos e entrevistas com poetas convidados).

Os poetas participantes desse trabalho bonito e dissonante foram Angélica FreitasCarlos H. BesenDaniela Osvald RamosIsrael Azevedo, Pablo Araujo Ojuara e este que vos tecla (à época juveníssimo!).

O link para a publicação: http://papelderascunho.com/?p=2951

 

papel rascunho

Mapa – Wisława Szymborska

Plano como a mesa
na qual está colocado.
Debaixo dele nada se move
nem busca vazão.
Sobre ele —meu hálito humano
não cria vórtices de ar
e deixa toda a sua superfície
em silêncio.

Suas planícies, vales, são sempre verdes,
os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
e os mares, oceanos, de um azul delicado
nas margens fendidas.

Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
acariciar os polos sem luvas grossas.
Com um olhar posso
abarcar cada deserto
junto com o rio logo ali ao lado.

Selvas são assinaladas com arvorezinhas
entre as quais seria difícil se perder.

No Ocidente e Oriente
acima e abaixo do equador —
assentou-se um manso silêncio.
Pontinhos pretos significam
que ali vivem pessoas.
Valas comuns e súbitas ruínas
não cabem nesse quadro.

As fronteiras dos países mal são visíveis
como se hesitassem entre ser e não ser.

Gosto dos mapas porque mentem.
Porque não dão acesso à dura verdade.
Porque, generosos e bem-humorados,
estendem-me na mesa um mundo
que não é deste mundo.

Wisława Szymborska (tradução de Regina Przybycien)

 

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